Review | The Last of Us Part II Remastered é muito beneficiado pelo tempo de luto dos jogadores

The Last of Us Part II Remastered estará disponível no PlayStation 5 a partir do dia 19 de janeiro.

Review | The Last of Us Part II Remastered é muito beneficiado pelo tempo de luto dos jogadores

2020 não foi um ano fácil para bilhões de pessoas. A pandemia estava em seu auge e as opções de entretenimento eram pouquíssimas. Uma das obras mais desejadas do ano era o lançamento do então muito aguardado The Last of Us Part II que, poucas semanas antes de ser disponibilizado, sofreu um vazamento em massa que trazia detalhes muito significativos da trama. 

Detalhes esses que eram quase impossíveis de acreditar na época, causando uma revolta intensa nos fãs. Em questão de horas do lançamento, todos os boatos inimagináveis se confirmaram e uma onda de tristeza acometeu os fãs da franquia estrelada por Ellie e Joel. Foi um evento tão poderoso que me arrisco até a dizer que sem precedentes no entretenimento, dividindo profundamente a base de fãs até hoje. 

Agora, após a Naughty Dog trabalhar por anos no remake do primeiro jogo, a previsível remasterização do segundo jogo será lançada agora, pouco mais de três anos depois, chegando ao PlayStation 5 com algumas novidades bem interessantes que podem justificar o investimento de R$ 50 para fazer o upgrade, caso ainda tenha a cópia original de PS4. Depois de tanto tempo, essa foi a primeira vez que joguei novamente o título que, certamente, melhorou com o tempo. 

A vingança nunca é plena…

É praticamente impossível qualquer gamer de PlayStation não saber o que raios aconteceu para The Last of Us Part II ter causado o polêmico impacto na base de fãs em 2020. Ainda assim, caso por um milagre você não saiba do que se trata, recomendo pular a leitura para o próximo tópico, pois este aqui terá alguns pequenos spoilers do que acontece na primeira hora de jogo. 

Sem dúvidas, o diretor e roteirista Neil Druckmann teve bastante coragem em realizar o movimento inimaginável de executar Joel, um personagem icônico da marca como um todo, já nas primeiras horas de jogo. A cisão do carismático protagonista do jogo original com o jogador é tão profunda que admito que fiquei bastante revoltado na época. A experiência inteira de ter jogado a campanha foi extremamente triste e depressiva. 

Nada colaborou também com o fato do jogo ser massivo, possuindo quase vinte horas de campanha, trazendo duas protagonistas em um estudo até então inédito de narrativa em explorar os conceitos de herói e vilão. Ao contrário de Red Dead Redemption 2, The Last of Us Part II não traz uma catarse de redenção, é sobre um ciclo contínuo e infinito de vingança, um Hartfield & McCoys moderno. 

Ao longo de toda a campanha, diversos atos de violência extrema ressoam entre os personagens em conflitos primários, secundários e até mesmo entre as facções que vemos se digladiar durante o jogo com os Lobos vs. os Serafitas – um conflito que tanto Ellie e Abby ficam alheias por estarem em demandas pessoais. 

Rejogar o título dessa vez, após anos lidando com a escolha criativa que a Naughty Dog tomou, finalmente consegui estar em paz com isso e apreciar o jogo pelo o que ele é e parar de reclamar de algo que ele poderia ter sido. Era possível contar uma história melhor e mais interessante, aproveitando mais dos personagens clássicos? 

Com certeza, mas não é possível mudar o que foi feito. Então, dentro da proposta surreal de Druckmann, a história funciona e, acredite, é preciso estar atento aos detalhes porque muitas coisas relevantes da história são mencionadas com bastante sutileza, além de exigir um raciocínio do jogador em montar as partes e comparar as jornadas dos personagens. 

Logo, a história fluiu melhor, apesar de nem tudo funcionar. Ainda é complicado acreditar no desfecho do jogo, após tanta carnificina e desmembramentos, há um maniqueísmo intenso em termos de level design entre Ellie e Abby, além dos novos personagens que não chegam nem perto de impactar como os coadjuvantes que acompanharam Joel e Ellie na primeira jornada.

Na parte de jogabilidade, já é sabido: o game é muito gostoso de jogar. A exploração recompensa, a atmosfera é terrivelmente única, o tiroteio é prazeroso, além da imersão ser praticamente inigualável. Trata-se mesmo de um material muito especial e bem pensado. Agora com a remasterização, há aprimoramentos sutis nas texturas e uma melhora nas animações faciais – principalmente nas que envolvem as finalizações furtivas. 

Agora, o jogo pode ser executado em 4K nativo, variando de 40 a 60 quadros por segundo, ou funcionar em 1440p com fps que podem superar a marca dos 90 – para televisores com suporte à altas taxas de atualização e VRR. Uma pena, porém, que ainda são necessários alguns patches para manter a taxa de quadros um pouco mais constante. Em passagens mais exigentes no visual, como a guerra civil na ilha dos Serafitas, há quedas bastante bruscas nos dois modos, o que atrapalha a jogabilidade. 

De resto, pode jogar com tanta fluidez e nitidez de imagem, é realmente um privilégio por si só – ainda mais agora que o jogo original não conta mais com o patch gratuito de 60 fps lançado no primeiro ano do PS5. Há também outro aprimoramento que ajuda na imersão do título, mas que será pouco notado: as draw distances estão bem maiores, trazendo panoramas mais belos e detalhados do que antes, com horizontes sem fim – tanto Jackson e Seattle quanto a fazenda de Ellie se beneficiaram muito com esse refinamento sutil. 

Entretanto, essas estão bem longe de serem as principais novidades que a remasterização traz consigo. 

Review | The Last of Us Part II Remastered é muito beneficiado pelo tempo de luto dos jogadores

Mata a alma…

A versão remasterizada traz um caminhão de extras, sendo o principal deles o novo modo Sem Volta, com mecânicas roguelike trazendo desafios diferentes a cada sessão. De fato, a Naughty Dog teve bastante trabalho para criar a novidade, pois ela é bastante completa, servindo até mesmo como um DLC independente – se fosse o caso. 

No Sem Volta, o jogador pode controlar diferentes personagens do jogo – a maioria deles é desbloqueado ao jogar com outros, trazendo abordagens diversas de combate com experiências equilibradas, dano corporal, fabricação de itens, especialista em armas, etc. A variedade adiciona doses de desafio bastante distintas, o que deixa o modo mais interessante por um período maior. 

São cinco partidas em uma sessão, terminando contra um chefe de fase que pode ser um Baiacu, uma horda, o Rei dos Ratos ou os serafitas mais parrudos que encontramos no meio da campanha. Após cada partida, o jogador retorna a um hub para fazer aprimoramentos de armas, comprar novos equipamentos e aumentar habilidades para então escolher a próxima partida. 

Infelizmente, nenhum novo inimigo é adicionado. Ao longo da sessão, as partidas podem ganhar modos diferentes: Ataque que é o padrão de ondas, Caçada na qual o jogador é caçado e deve sobreviver por um limite de tempo, Captura no qual é preciso conquistar um território e Resistência onde o objetivo é proteger o companheiro de ataques de hordas de inimigos – estes variam apenas entre Lobos, Serafitas e infectados.

O jogo também dá a opção de realizar partidas totalmente customizadas, adicionando os modos que quer jogar e o chefe final. Diversos modificadores divertidos podem ser adicionados como slow motion, chuva de molotovs, inimigos que soltam bombas ao morrer, modificadores de nível de saúde, névoa densa, chuva, armadilhas, bônus de dano, recompensas de fabricação, etc. A Naughty Dog realmente adiciona muitas opções para dar vida ao modo. 

Com certeza é uma experiência divertida, mas admito que ela pode envelhecer rápido por ter sido pensada para somente um jogador. Caso tivéssemos um modo cooperativo, o Sem Volta seria muito mais divertido e viciante, já que há uma boa barra de progressão de desafios para liberar personagens, skins e outros bônus. Uma verdadeira pena. Ainda assim, é louvável que o estúdio tenha presenteado os fãs com essa novidade. 

Além disso, existem os alardeados níveis perdidos que trazem apresentação em vídeo com um Neil Druckmann muito desanimado e comentários entusiasmados dos desenvolvedores. São três níveis: Festa em Jackson, Esgotos e A Caçada. Se juntar todos, não dão nem quinze minutos de conteúdo inédito. A experiência é interessante por podermos ver como é um estado não finalizado de um jogo, mas apenas isso. Poucos detalhes de narrativa importam aqui. Honestamente, eu esperava mais deste conteúdo que acabou se provando o menos interessante do pacote inteiro. 

O remaster também traz o modo de New Game+ e também a adição de comentários dos desenvolvedores e elenco ao longo do jogo inteiro após a conclusão da campanha. Então é uma mistura muito valiosa que pode entreter por horas se for um gamer que se interessa por bastidores. Outros extras como artes conceituais são disponibilizados além do modo livre para tocar violão no minigame disponibilizado na campanha. Aqui, o jogador pode escolher diferentes instrumentos como violas, banjos e guitarras, além de adicionar efeitos sonoros no instrumento. Com certeza vai render muitos vídeos interessantes de jogadores tocando suas músicas favoritas. 

Review | The Last of Us Part II Remastered é muito beneficiado pelo tempo de luto dos jogadores

E a envenena.

The Last of Us Part II Remastered traz bastante conteúdo inédito para justificar sua compra no upgrade pago para quem possui o original. E a compra também faz sentido para quem não tem mais o jogo ou que nunca o jogou antes. Certamente, depois de três anos, é um pacote bem-vindo que pode jogar luz à uma discussão ainda assombrada pelo ressentimento dos fãs. 

Afinal, o lançamento original também sofreu tremendamente com o estado psicológico geral que as pessoas se encontravam, durante o isolamento ferrenho das quarentenas, o pessimismo traumático e também a enxurrada da presença online, fomentando discussões intensas sobre o conteúdo da história. 

Por isso, trata-se de uma experiência bastante distinta da que a maioria sentiu originalmente que vale a nova visita. O jogo segue um manjar para os olhos, extremamente gostoso de jogar, com níveis desafiadores e ainda repletos de tensão pela atmosfera inebriante apresentada. The Last of Us Part II envelheceu como vinho e merece ser degustado novamente com uma outra cabeça mais amadurecida. 

Avaliação: 4.5 de 5.

Agradecemos pela cópia gentilmente cedida pela PlayStation para a realização da análise.