Review | Prince of Persia: The Lost Crown revigora franquia clássica da Ubisoft

Prince of Persia: The Lost Crown lança em 18 de janeiro para Xbox One, Xbox Series, PS4, PS5, PC e Nintendo Switch.

Review | Prince of Persia: The Lost Crown revigora franquia clássica da Ubisoft

Prince of Persia: The Lost Crown é um jogo que veio como uma baita surpresa da Ubisoft, que abre o ano com um título de uma das séries mais influentes sob seu domínio e que ajudou a moldar o que a empresa é hoje. Curiosamente, a série esteve adormecida dentre os lançamentos para console por mais de 13 anos, sendo o último lançamento Prince of Persia: The Forgotten Sands de 2010. 

Nesse meio tempo, o príncipe da Pérsia fez algumas aparições, como no jogo Shadow and The Flame para mobile (sendo este um remake do clássico Prince of Persia 2 de 1993) e em algumas referências em jogos de outras franquias, sendo a última em Assassin’s Creed Mirage, onde os desenvolvedores colocaram alguns elementos da série do príncipe, itens como a adaga do tempo, a espada de areia e a ampulheta como adereços disponíveis no jogo.

A Ubisoft vem mostrando interesse em trazer o retorno do príncipe aos videogames há muito tempo, o que seria muito bem vindo, visto que o interesse nas franquias carro chefe como Assassin’s Creed e Far Cry vem caindo nos últimos anos. Há algum tempo havia sido revelado o trailer para um remake de Prince of Persia: The Sands of Time, um dos maiores clássicos do PS2 Infelizmente várias pessoas notaram alguns problemas com o jogo e os desenvolvedores acharam melhor adiar o lançamento indefinitivamente para corrigir tais problemas. Parecia que ficaríamos sem o príncipe ainda por muito tempo, mas de surpresa o anúncio de The Lost Crown foi feito para a alegria de alguns fãs mais antigos como este que vos escreve.

Um Novo Príncipe

Não foram todos os fãs de longa data da série que se animaram com o anúncio. Alguns expressaram que preferiam que a Ubisoft seguisse em frente com o remake de The Sands of Time, o que é bastante compreensível, afinal aquela é provavelmente a encarnação mais popular do príncipe. No entanto, vale lembrar que o príncipe apresentado na trilogia do PS2 não é a única nem a primeira versão do príncipe.

Desde sua primeira aparição em 1989, o icônico personagem criado por Jordan Mechner passou por várias reformulações. Sands of Time foi o primeiro reboot da série que teve sua origem nos computadores Apple II, MS-DOS e posteriormente portado no Super Nintendo. Depois que a trilogia The Sands of Time foi concluída, outro reboot foi feito em 2008. E agora temos uma nova versão que combina alguns dos melhores elementos dos jogos antigos incrementando com alguns aspectos novos. Em resumo, não é necessário você saber nada da história ou do lore presente nos jogos anteriores para curtir essa nova aventura.

Na nova história, o reino da Pérsia é protegido por um grupo de guerreiros de elite que se autodenominam como “imortais”. Um dia, o príncipe Ghassan é sequestrado, a rainha convoca os sete guerreiros que partem no encalço dos malfeitores para resgatar o príncipe. A jornada os leva ao místico Monte Qaf, domínio do Simurgh, deus da sabedoria e do tempo, onde muitas coisas estranhas acontecem.

Apesar de esta ser uma nova continuidade, os fãs mais antigos vão perceber que existem várias referências ao legado da série. O novo protagonista é Sargon, um dos guerreiros imortais, seu objetivo principal durante o jogo é resgatar o príncipe. Essa ideia não é totalmente estranha, lembra muito o conceito do cancelado Prince of Persia: Assassins, onde o jogador iria assumir o papel de um assassino que trabalharia como guarda costas do príncipe. A ideia foi a base do que se tornou Assassin’s Creed.

O jogo é um Side Scroller de plataforma 2D, assim como era o jogo original de 1989, agora combinado com elementos de RPG e exploração no estilo metroidvania, que jogos como Metroid e Castlevania popularizaram nos anos 1980 e 1990. A poção de cura que Sargon carrega durante o jogo lembra muito o líquido que o jogador encontrava no original para restaurar sua vida. Neste jogo, é implementado o arco e flecha para ataques a distância, essa não é uma mecânica estranha na série, sendo presente no infame Prince of Persia 3D.

A história apresenta também a ideia de viagem no tempo e paradoxos temporais. Esses aspectos são elementos que ficaram quase indissociáveis da série, visto a popularidade da trilogia Sands of Time na era do PS2. Essas coisas não são meras referências, elas também incrementam na narrativa e no gameplay do jogo de uma forma única. 

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Uma nova Pérsia

Os desenvolvedores optaram por um estilo mais cartunesco neste jogo, animando em cel shading e utilizando a técnica de key frames. A técnica consiste em animar a mão, uma alternativa a maioria dos jogos AAA que vem utilizando cada vez mais captura de movimentos. Animar do zero através de key frames dá mais trabalho aos animadores, mas o resultado final é altamente satisfatório quando bem executado. Prince of Persia é uma série que desde seu início, ainda na década de 1980 prezava pela fluidez e qualidade na sua animação e The Lost Crown executa a tarefa de forma primorosa.

No que concerne o estilo em Cel Shading, isso também não é novo na série, estando presente também no subestimado reboot Prince of Persia de 2008 que também fez bom uso do estilo numa abordagem de aventura de mundo semi aberto com movimentação em 3D. The Lost Cown apresenta um mundo de cores vibrantes, com muitos detalhes para serem olhados. Em particular, uma cena que me impressionou bastante envolve um barco pirata que ficou parado no tempo. Os desenvolvedores colocaram vários pontos interessantes de uma batalha que ocorria no mar enquanto o navio naufragava.

No todo, o estilo e a história do novo Prince of Persia me lembraram um anime shonen. Ao estabelecer a nova mitologia do jogo, é dito que os personagens possuem um poder interior, chamado Athra, que quando controlado e manipulado permite ao usuário realizar feitos sobrehumanos, até mesmo sendo possível lançar raios pelas mãos. Em suma, este poder é basicamente a mesma coisa do ki, chakra, cosmo ou o que quer que chamem no seu anime favorito. Claro que este poder misterioso tem sua origem em diversos textos do misticismo e filosofia orientais, da qual a Pérsia também faz parte, então foi uma boa adição ao lore do jogo. 

Os combates do jogo lembram bastante alguns animes, com lutas muito bem coreografadas e movimentos exagerados, com direito a auras de energia, super velocidade, teleporte e cortes fantasma. Eu fiquei até mesmo com vontade de assistir um anime shonen se passando na Pérsia antiga após jogar (quem sabe um baseado neste jogo, quem sabe o que o futuro nos reserva.)

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Melhore e volte depois

Sendo este um metroidvania, o jogo foca bastante em exploração, sendo assim, você pode escolher o caminho que deseja prosseguir, isso é, até que encontre um obstáculo indicando que a área ainda não é acessível, ou seja, você precisa de um upgrade ou de um item chave para prosseguir na área. É fácil se perder nos jogos Metroidvania que muitas vezes não possuem uma indicação de onde tal item pode estar, por isso é recomendado não deixar nada passar e entrar em todas as áreas possíveis indicadas pelo mapa. No caso deste game, há o modo guiado que já evita bastante que o jogador se perca colocando um marcador no próximo objetivo quando o mapa é aberto.

Para prosseguir no Monte Qaf, o jogador vai precisar passar por diversos obstáculos em sessões de plataforma. A cada upgrade, mais sessões de plataforma ficam disponíveis ao jogador. Algumas dessas partes representam um desafio considerável que pode deixar o jogador preso em algumas ocasiões. Para o veterano em jogos Metroidvania, boa parte da graça do jogo está em superar esses desafios, mas para aqueles que não possuem essa paciência, a Ubisoft deixou o modo de plataforma guiada, que permite que o jogador simplesmente pule a sessão. A Ubisoft deixa o jogo mais acessível para jogadores casuais, algo que vejo como positivo.

Outro aspecto do jogo que não pode ficar sem menção é o combate, aqui temos diversas nuances que fazem o jogo ficar ainda mais interessante. No prólogo o jogador é ensinado o combo básico de Sargon, a defender e aparar ataques que preenchem a barra de Athra, permitindo um ataque devastador, além de desviar  dos ataques com a rasteira e com o pulo.

Conforme os upgrades vão sendo conquistados, novas possibilidades de ataques e combos ficam disponíveis. O jogador pode treinar nos desafios disponíveis no refúgio. 

O Refúgio é o lugar que o jogador vai visitar com mais frequência, lá é possível melhorar suas armas, suas poções e comprar alguns itens como amuletos mágicos. Os amuletos aprimoram algumas coisas no personagem, podendo conceder maior resistência, mais opções de ataques ou vida adicional. Os amuletos podem ser encontrados ou comprados com alguns personagens que encontra durante o jogo e podem ser equipados em uma árvore wayku (que também serve de checkpoint no jogo). 

As mercadorias e aprimoramentos podem ser comprados através dos cristais que são coletados durante o jogo, sendo encontrados em certos locais ou derrotando inimigos e/ou com as moedas de Xerxes. Essas moedas não são tão prontamente disponíveis como os cristais. Geralmente para encontrá-las o jogador deve passar por complexos desafios de plataforma.  

Nas árvores wayku também podem ser equipados os poderes de athra que podem ser usados quando a barra é preenchida durante o combate. Acertar ataques e aparas a preenchem, mas levar dano a esvazia. O jogador é incentivado então a jogar de uma forma que evite dano para ser recompensado com esses ataques adicionais. A mecânica lembra um pouco a que encontramos em jogos hack n’ slash como Devil May Cry ou God of War. 

Algo que impressiona também é a quantidade de inimigos diferentes, cada ambiente tem um conjunto diferente deles. As lutas de chefes proporcionam desafios diferentes que requerem certa criatividade na abordagem de combate. Cada um me rendeu algumas mortes para entender seus padrões de ataque e quando superados proporcionaram uma grande sensação de satisfação. É importante citar também a música, inspirada na música clássica mezzo oriental e o excelente design de som que incrementa bastante a exploração e o combate do jogo.

O jogo também possui 9 diferentes sidequests que não são exatamente necessários, mas por vezes acrescentam algumas coisas à história principal, além de proporcionar alguns itens a mais e incentivam a exploração de toda a área do monte Qaf, proporcionando ainda mais objetivos. No caminho, Sargon vai conhecer as figuras mais curiosas dentre os personagens NPCs como a jovem Fariha que serve como uma guia, sempre complementando o mapa para você, a maga anciã, que vende melhorias e muitos outros.

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Conclusão

Depois de uma ausência de mais de uma década, Prince of Persia não poderia ter um retorno melhor. The Lost Crown é um excelente Metroidvania que pode proporcionar horas de diversão tanto aos fãs do gênero quanto aos da série, enquanto apresenta esse universo mitológico repleto de possibilidades a toda uma nova gama de jogadores que não tiveram a oportunidade de jogar os jogos anteriores.

Com uma animação soberba, combate frenético e sessões de plataforma extremamente criativa, a Ubisoft lança um dos seus melhores jogos dos últimos 10 anos sem sombra de dúvidas. O time responsável por Rayman Legends conseguiu fazer novamente com que tanto os gamers assíduos quanto os executivos que a companhia ainda consegue proporcionar jogos de qualidade excelente com alguma criatividade fora das suas franquias mais famosas que infelizmente estão um pouco engessadas. Mas creio que Prince of Persia: The Lost Crown é o início de um futuro mais promissor para a Ubisoft dentro da indústria dos games.

Avaliação: 4.5 de 5.

Agradecemos a Ubisoft pela cópia gentilmente cedida para a análise.