Review | Like a Dragon: Infinite Wealth traz despedida memorável de um personagem eterno 

Like a Dragon: Infinite Wealth está disponível para PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox One, Xbox Series e PC.

Review | Like a Dragon: Infinite Wealth traz despedida memorável de um personagem eterno 

Quase duas décadas depois de seu surgimento, a franquia Yakuza conseguiu entregar grandes sucessos. O esforço contínuo do admirável estúdio Ryu Ga Gotoku foi persistente ao longo de cinco gerações, unindo histórias de crime e drama memoráveis aliadas à uma jogabilidade viciante. 

Ao longo de quatro gerações de consoles, três remakes, onze jogos derivados e oito principais para enfim culminar no grande final de um dos protagonistas mais carismáticos da décima arte: Kazuma Kiryu. O mais curioso é o fato da história do Dragão de Dojima terminar com um gênero de jogo completamente diferente ao original: um RPG de turno. 

Entretanto, Like a Dragon: Infinite Wealth não se trata apenas do canto do cisne de Kiryu, como também é a continuação direta de Yakuza 7 que, além de reformular a jogabilidade da saga, apresentou outro grande protagonista: o carismático Kasuga Ichiban. 

Um conto de duas cidades 

Assim como todos os outros grandes jogos da saga, Infinite Wealth apresenta uma narrativa caprichada recheada de exageros, reviravoltas, humor e tragédia. Esses são elementos onipresentes nas histórias que os profissionais do Ryu Ga Gotoku se tornaram especialistas ao longo dos anos. 

Entretanto, o desafio dos roteiristas aqui é ainda maior por apresentar dois protagonistas, uma enxurrada de personagens de legado e ainda incluir novos companheiros e vilões até então inéditos. Logo, acredite, conhecer a franquia logo em Infinite Wealth é pedir para ficar extremamente perdido em muitos elementos da história que foram feitos cuidadosamente para os mais fiéis dos fãs. 

Para conseguir captar pelo menos a maior parte da história, se faz necessário ter jogado Yakuza 6, Yakuza: Like a Dragon e também o recente Like a Dragon Gaiden, derivado que consegue colocar Kiryu nessa narrativa aqui. 

Anos após defender o Japão de um golpe político e testemunhar a dissolução dos maiores clãs yakuza do país, Kasuga Ichiban vive uma vida ordinária, mas feliz. Mantém seu trabalho e amigos próximos em sua rotina, até que se torna vítima de uma denúncia caluniosa repleta de manipulação. 

Sendo enxotado de Yokohama, Kasuga acaba descobrindo algo inimaginável até então: sua mãe está viva. Mas como nada vem fácil para o protagonista, tem um porém: ela mora no Havaí. Sem emprego e nada melhor para fazer, o herói parte para sua primeira viagem na vida pronto para descobrir uma parte de seu passado. Até que, em questão de apenas um dia, tudo se complica com uma grande vantagem: a companhia surpresa de Kyriu que também está em Honolulu. 

Não é novidade para nenhum veterano da franquia que as histórias sempre são consideravelmente longas, trazendo uma plenitude de personagens envolvidos em conflitos de altos riscos. Aqui não é diferente. Uma simples busca pela mãe de Ichiban evolui para a luta contra uma conspiração nipônica que vai afetar toda a comunidade de ex-yakuzas após a grande dissolução testemunhada nos jogos anteriores. 

Apesar da narrativa aqui ser um tanto mais descuidada, com trechos previsíveis e conveniências narrativas em excesso, ela é emocionante com grandes momentos que podem ser classificados dentre os melhores da saga. 

Dessa vez, a história explora temas interessantes como seitas religiosas, apresentando pouco conteúdo realmente novo e apostando em elementos mais seguros. O que segue impressionando é a criatividade em conseguir unir diversos personagens com boas motivações e oferecer um bom detalhamento de personalidades para as novas adições. 

Enquanto os vilões da vez são menos expressivos (sendo que um deles tem um sotaque fortíssimo japonês ao falar em inglês – sendo que essa seria o idioma principal do personagem), há boas experiências com Tomizawa e Chitose – os amigos que Ichiban faz no Havaí. Aliás fica aqui um adendo: quando jogarem, nem ousem usar a dublagem americana que é simplesmente horrorosa a ponto até de mudar o gênero de personagens de histórias secundárias. Opte sempre pelo idioma japonês. 

Enquanto Chitose reserva grandes surpresas ao longo da história, Tomizawa é menos expressivo, mas com um passado bastante rico e trágico. Algo que é até impressionante por se tratar de temas muito pesados até mesmo para a franquia. Porém, ainda que os arcos de ambos não recebam a mesma qualidade ao longo dos 14 capítulos da história, a transformação é basicamente a mesma: os dois encontrando uma família com a amizade de Ichiban e de seus comparsas de antigamente. 

O arco de Ichiban é quase exclusivamente ligado a encontrar a mãe e rende momentos emocionantes. A personalidade do personagem segue cativando ao preservar uma inocência e força de vontade inigualáveis – além do trabalho de voz do ator Kazuhiro Nakaya ser magistral. Aqui, a ingenuidade de Kasuga acaba rendendo diversos revezes até com consequências sérias, mas infelizmente isso pouco é abordado em conflito para o personagem crescer. 

Um dos pontos mais especulados na época em antecipação ao jogo era justamente como seria a interação de Kasuga com Kiryu. Como os personagens dividem a tela por bastante tempo, há muitos diálogos engraçados e cativantes, com duas visões de mundo distintas se chocando com a mesma intenção de bondade e transformação. Kiryu é realista enquanto Ichiban tem um idealismo muito forte. 

O elenco secundário envolve oito coadjuvantes que atuam também como a equipe para ser usada nos combates do jogo. Cada um deles tem seus momentos em boas histórias secundárias oferecidas nas missões de Parceria de Copo. Embora a qualidade das histórias seja um pouco inferior a de Yakuza 7, são suficientemente boas para conferir maior complexidade aos coadjuvantes. Aqui, também existem diálogos opcionais espalhados nos mapas abertos de Honolulu e Yokohama que trazem detalhes únicos de cada companheiro. Isso ajuda a estreitar o vínculo com cada um, liberando mais das missões individuais. 

Kiryu tem o seu próprio arco, evidentemente, entretanto tocar nesse assunto no texto envolve um spoiler muito sensível que eu não quero estragar. É uma história ótima, mas um pouco cliché. Dentro da lógica da saga, faz todo o sentido com elementos disso se tornando até mesmo uma atividade de exploração no terço final do jogo. Aliás, a maior novidade mecânica da jogabilidade é bem sacada aqui e encaixa perfeitamente ao personagem e à situação que ele vive. A catarse final do personagem é bastante bonita e apresenta uma evolução completa de sua jornada desde Yakuza 0.

Então o que há de fato para não gostar da história de Infinite Wealth? O fato de esticarem artificialmente o tempo de jogo. Aqui, devido ao grinding de subir de nível, é fácil encarar as trinta horas de experiência para finalizar o jogo. Entretanto, a maior culpa não é pelo grinding, mas sim pelo tanto de conteúdo secundário inserido como principal. 

Nos primeiros capítulos do jogo há diversos desvios da história para apresentar elementos ou mecânicas secundárias e isso acaba levando horas, além de prejudicar muito o ritmo da experiência. Constantemente somos interrompidos para aprender elementos secundários. A direção do jogo obriga você a saber dos outros conteúdos: a Liga Sujimon, o aplicativo de namoro, as tours da Alohappy, as entregas do Crazy Delivery e todas as mecânicas exclusivas da ilha Dondoko. 

Tudo isso inflou ao máximo a narrativa com filler. Logo, nunca há um senso de urgência no até a metade do jogo, mesmo depois de sabermos mais das circunstâncias da dificuldade de encontrar a mãe de Ichiban. Isso já era bastante evidente em Like a Dragon Gaiden, mas ver isso se repetir em um capítulo principal da saga, com orçamento alto, é uma surpresa negativa.

Então, mesmo que toda a jornada valha a pena, principalmente pelo carinho e cuidado no encerramento da história de Kiryu, é preciso ter uma boa dose de paciência para chegar até o final do jogo. Para complicar ainda mais, surpreendentemente a coesão da narrativa é uma das piores da saga, com muitas pontas soltas e decisões questionáveis para encerrar o clímax da obra – além do fato de Ichiban “sobrar” na história após sua cena mais emocionante. Ao menos, há fanservice e boas referências de sobra. 

Review | Like a Dragon: Infinite Wealth traz despedida memorável de um personagem eterno 

Ambição sem precedentes 

Em termos de escopo, não há dúvidas que Infinite Wealth é o jogo mais massivo da franquia. São três cidades para explorar, sendo que Honolulu é totalmente nova. Mais de 100 tipos de inimigos que também podem ser usados como Sujimons, além de praticamente todas as atividades secundárias que já vimos na saga: karaokê, golfe, baseball, arcades, dardos, pesca, mahjong, blackjack, poker, entre outros. 

Cada cidade também está recheada de missões secundárias trazendo conexões significativas para Kyriu e histórias absurdas para Ichiban. São algumas das melhores missões da saga e vale bastante a pena dar uma chance pra elas. Fãs de longa data ficarão felizes pelo ressurgimento de muitos personagens carismáticos. 

Entretanto, o maior foco do desenvolvimento de conteúdo adicional está em dois modos: o retorno expandido dos Sujimons que agora possuem torneios e até uma liga Sujimon e a ilha Dondoko. Nela, o estúdio trabalha toda a mecânica de um jogo de lazer como Animal Crossing oferecendo um espaço grande para Ichiban criar um resort cinco estrelas construindo locais e objetos de decoração diversos, além de precisar obter e colecionar diferentes recursos. É algo que por si pode te ocupar dezenas de horas de tão massivo que se trata o escopo. 

Em termos de mecânica, Infinite Wealth traz uma bela repaginada de Yakuza 7, refinando os elementos de RPG de turno inaugurados na época. Agora, o jogador pode refinar a estratégia em cada batalha ao poder posicionar o personagem em certo raio de movimentação. Isso permite conectar golpes com outros membros do grupo ou poder atingir diversos inimigos em golpes especiais e normais. 

Isso deixa as lutas mais dinâmicas e ativas para o raciocínio do jogador. Entretanto, em Honolulu, o mapa é ridículo de tão cheio de inimigos o que acaba resultando em muitas sequências de batalhas, interrompendo o fluxo do jogo em momentos mais urgentes. É uma dose bastante exagerada. Felizmente isso não acontece em Yokohama. 

O grinding de Yakuza 7 também é mitigado por aqui, tornando o processo de evoluir de nível menos custoso. Tanto que o jogador pode farmar experiência com inimigos de nível inferior (avistados com ícones azuis) e ativar o “Massacre” que finaliza as batalhas assim que elas começam. Duas masmorras infinitas também são ótimas para treinar e subir de nível rápido, embora sejam mais difíceis. 

Mais efeitos de buff e debuff foram inseridos para os personagens durante as batalhas, deixando o desafio mais complexo, além da exigência de maior preparo do jogador com itens diversos. O mesmo se aplica para as armas que precisam de upgrades e também possuem efeitos de status podem congelar, queimar, paralisar, envenenar, entre outros. 

A jogabilidade foi refinada ao máximo e, honestamente, é difícil crer que haja mais espaço de para a evolução de mecânicas nas próximas iterações. O caminho que devem seguir é apostar mais no excêntrico e ridículo como a divertida luta contra um tubarão gigante que foi propagandeada ao máximo pelo marketing do jogo. 

Sobre o novo mapa de Honolulu, é notável o esforço do Ryu Ga Gotoku que tem a má fama de reciclar assets infinitamente. Embora tenhamos dois grandes distritos já conhecidos pelos jogadores, Honolulu compensa pela quantidade massiva de atividades e cuidado na criação de diversos bairros distintos dentro da cidade, além de apresentar três novas facções de inimigos. Mas como a densidade de inimigos é muito alta, enfrentamos muitas vezes os mesmos NPCs, o que acaba enjoando um tanto depois de diversas horas investidas. 

Graficamente, a engine da franquia, reformulada desde Yakuza 6, já dá sinais de cansaço. A iluminação em diversas cinemáticas é caprichada, mas há falta de cuidado no detalhamento de alguns personagens secundários em termos de textura. As animações faciais seguem excelentes, assim como a coreografia das lutas que são interativas via QTEs. As cidades mantêm uma boa qualidade visual, principalmente no modo noturno, mas a distância de renderização sofre bastante com pop-in de elementos em cena conforme o personagem avança no mapa. Pode ser um tanto distrativo e certamente será um elemento negativo em iterações futuras caso isso permaneça. 

Os novos NPCs americanos são feitos com cuidado e há até mesmo uma nova mecânica de interagir com todos e poder conquistar a amizade alguns, elevando a popularidade e atributos de Ichiban. Pena que a mesma mecânica não é replicada com Kiryu nos capítulos focados nele. 

Em suma, visualmente o jogo é ok e perfeitamente aceitável para ser um cross-gen, mas está longe de atingir todo o potencial da franquia. Aliás, destaca-se aqui todo o excelente trabalho do port para o PC. Além de estar muito bem polido e otimizado, o jogo chega com FSR 3 e DLSS 3, multiplicando o FPS generosamente para uma experiência visual perfeitamente fluida. O Ryu Ga Gotoku é um estúdio que realmente é digno de atenção pelo cuidado do estado de seus lançamentos. 

Review | Like a Dragon: Infinite Wealth traz despedida memorável de um personagem eterno 

Quem tem amigos, tem tudo

Like a Dragon: Infinite Wealth não se trata do melhor jogo da franquia, mas está entre os melhores com certeza. Apesar da falta de coesão e deixar muitas pontas soltas para futuras iterações, o jogo tem uma montanha de conteúdo divertido, traz um refinamento de mecânica muito bem idealizado, além de concluir o arco de Kiryu de forma mais que satisfatória, oferecendo uma catarse que dialoga com a história do personagem desde a sua concepção. 

Agora, diante desse ritmo de trabalho insano no qual o estúdio entregou 3 jogos em um intervalo menor que um ano, torço muito para que Yakuza 9 consiga explorar ao máximo o potencial de Kasuga Ichiban enquanto também delineia ainda mais novidades para os personagens de legado, tão inesquecíveis. Finalmente, é uma ótima experiência que recomendo a todos os fãs da franquia.

Avaliação: 4 de 5.

Agradecemos à SEGA pela cópia gentilmente cedida para a análise.